depois de alguns goles de vinho e
de algumas releituras pelo passado de mim que está espalhado aqui
deu vontade de postar algo.
"Cada qual tem seu álcool. Tenho álcool bastante em existir. Bêbado de me sentir, vagueio e ando certo. Se são horas, recolho ao escritório como qualquer outro. Se não são horas, vou até o rio fitar o rio, como qualquer outro. Sou igual. E por detrás disso, céu meu, constelo-me às escondidas e tenho o meu infinito."
Palavras do meu amado Fernando Pessoa,
no Livro do Desassossego.
Domingo, Dezembro 10, 2006
Terça-feira, Maio 02, 2006
final
tudo na vida tem sua fase, seu momento, seu ciclo. o day tripper, que felizmente foi o blog mais duradouro que já tive, fez parte de uma fase, mas seu momento passou. isso provavelmente já está mais do que claro nas minhas intermináveis ausências e a sempre recorrente notícia de que vou voltar a escrever. acho que demorou pra que eu realmente tivesse coragem de dar um ponto final a isso aqui, mas o dia chegou.
bom, dessa vez não vou deletar o blog, como fiz com o Pluralismo. deixarei o day tripper "vivo", mais como um arquivo de minha vida, porque é pra isso que ele realmente tem servido.
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bom, dessa vez não vou deletar o blog, como fiz com o Pluralismo. deixarei o day tripper "vivo", mais como um arquivo de minha vida, porque é pra isso que ele realmente tem servido.
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Sábado, Abril 29, 2006
Quinta-feira, Abril 20, 2006
a cidade e as cidades
é engraçado como dentro de uma cidade cabem várias cidades. dentro do recife cabem vários recifes. cabe o recife cult, da moda e "descolado" que vai ao Cine PE ver festival de cinema. também cabe o recife interiorano, ali, pelas ruas do centro, que joga dama num tabuleiro com tampinhas vermelhas de coca e amarelas de skol. cabe, sufocadamente, o recife dos prédios imponentes, espelhados, que se acotovelam pra ter um espaço de céu, e o recife das paredes gastas, em que a tinta descasca mostrando as rusgas da cidade.
eu me pergunto,
quanto recifes cabem dentro do recife?
creio que conheço pouco, muito pouco das cidades que compõem esta cidade.
eu me pergunto,
quanto recifes cabem dentro do recife?
creio que conheço pouco, muito pouco das cidades que compõem esta cidade.
Terça-feira, Abril 18, 2006
constatação
as pessoas com as quais eu estudei estão começando a ter filhos(!)
os amigos de amigos estão tendo filhos, já tem gente até com filho de um ano(!!)
eu não posso ver uma criança passar a um raio de alguns metros de distância que minha atenção se volta totalmente naquela direção e eu entro num estado abestalhal de "ounnnnn..." (!!!)
meu deus do céu...estamos envelhecendo
!
(nota: e se alguém achar que eu estou querendo filho, eu digo que só depois ou por volta dos 30. Sener diz que eu não vou aguentar esperar tanto tempo. vamos ver quem vai estar certo.)
os amigos de amigos estão tendo filhos, já tem gente até com filho de um ano(!!)
eu não posso ver uma criança passar a um raio de alguns metros de distância que minha atenção se volta totalmente naquela direção e eu entro num estado abestalhal de "ounnnnn..." (!!!)
meu deus do céu...estamos envelhecendo
!
(nota: e se alguém achar que eu estou querendo filho, eu digo que só depois ou por volta dos 30. Sener diz que eu não vou aguentar esperar tanto tempo. vamos ver quem vai estar certo.)
Sábado, Abril 01, 2006
um dia
um dia, semanas atrás, eu pensei em escrever um post. só pra deixar aquele dia registrado em algum lugar. não era nada muito interessante. só teria algumas poucas palavras, algo assim:
o dia hoje foi de tomates verdes, aeroporto e saudades.
o dia hoje foi de tomates verdes, aeroporto e saudades.
Courage, my love (versão 2)
é engraçado como me pego escrevendo as mesmas palavras, quase exatamente um ano depois, mas em situações completamente diferentes.
a vida tem desses desfechos curiosamente inimagináveis.
reler arquivos é uma maravilha. sempre me surpreendo, com as baboseiras ou coisas interessantes aqui registradas.
definitivamente, percebi que tenho que voltar a escrever. ou a registrar minhas besteiras.
perdi o costume de escrever, e não sei por onde começar. mas tem que se (re)começar, de algum jeito.
a vida tem desses desfechos curiosamente inimagináveis.
reler arquivos é uma maravilha. sempre me surpreendo, com as baboseiras ou coisas interessantes aqui registradas.
definitivamente, percebi que tenho que voltar a escrever. ou a registrar minhas besteiras.
perdi o costume de escrever, e não sei por onde começar. mas tem que se (re)começar, de algum jeito.
Sexta-feira, Março 17, 2006
?
Costume de comer
Por Tom Zé
Pouco antes da hora do almoço eu olhei prum lado, pro outro e calculei que não existia almoço.
Ora, eu estava acostumado a almoçar todos os dias, desde que nascera, e aquilo me assustou muito. Estava acostumado a tomar café com pão, cuscuz, manteiga, açúcar, leite, requeijão, todos os dias de manhã, a almoçar ao meio-dia, a jantar também diariamente às seis horas. Naquele tempo, em 1964, eu era jovem e ainda jantava, depois comia um pedaço de carne roubado na geladeira na hora de dormir.
Esse negócio de comer é como um vício, quando a gente está acostumado não se pergunta de onde vem o alimento, quanto custa, como aparece; nem quem cozinha, nem o trabalho que dá. O fato é que existe o hábito: na hora de comer você come e pronto.
Diante daquela situação nova, na hora do almoço eu desconfiei que não tinha almoço. Que susto, rapaz! Eu estava na roça de Pereira, que conhecera no balcão da loja de meu pai, era freguês. Ele já tinha me socorrido antes, em 1958, quando eu consegui uma dispensa no Exército para ir a Irará. Fiz a viagem a pé durante a noite, de Água Fria a Irará; às quatro da manhã percebi que não agüentava mais andar com aquela mala na mão, depois de caminhar ao lado das estrelas a noite toda. Resolvi entrar na primeira cancela que achei; era justamente a de Pereira, o mesmo homem que mais tarde me levou, montado no seu jegue, completando os dois quilômetros que faltavam para Irará -- o filho de seis anos e ele próprio por companhia.
Agora, na hora do almoço, estamos em 1964, e por coincidência foi para a casa de Pereira, casa muito pobre, de chão batido, que meu pai me mandou por medo das ameaças de que o Exército, aquele mesmo que eu servira em 58, estivesse, conforme as notícias assombradoras, se aproximando de Irará.
Então, na hora do almoço, desconfiei que não tinha almoço. Olhei prum lado, pro outro, e perguntei a Augusto, meu irmão e companheiro de fuga. Augusto me informou: "O almoço vem de Irará. Todos os dias vão mandar." O fato é que durante o tempo em que estivemos na casa de Pereira ele, a mulher e o filho almoçaram todos os dias conosco. Meu pai se preocupava muito com comida: além de ele ter passado fome quando criança, eu sempre ouvira dizer que seus irmãos haviam morrido tuberculosos e que uma das causas era a inanição. A comida que que meu pai mandava de Irará era tão farta que dava para nós cinco almoçarmos e jantarmos.
Foi assim que eu compreendi como é que aquelas pessoas do sertão viviam havia 25 gerações, quer dizer, havia 400 anos. Cada dia é uma uma interrogação que pergunta se haverá um próximo dia. Esse futuro os encontrará vivos se eles conseguirem comer hoje alguma coisa que dê para sustentar a voracidade com que as células necessitam de energia.
-x-
Eu estava perambulando pela Livraria Cultura e achei um livro que trazia esse texto do Tom Zé na orelha. O livro se chama Nova Geografia da Fome, de Xico Sá com fotos de U. Dettmar.
Não deu pra ver ou ler muita coisa, eu estava com pouco tempo, mas fiquei encantada com esse texto do Tom Zé... com essa simplicidade em se expressar, em saber traduzir .
Por Tom Zé
Pouco antes da hora do almoço eu olhei prum lado, pro outro e calculei que não existia almoço.
Ora, eu estava acostumado a almoçar todos os dias, desde que nascera, e aquilo me assustou muito. Estava acostumado a tomar café com pão, cuscuz, manteiga, açúcar, leite, requeijão, todos os dias de manhã, a almoçar ao meio-dia, a jantar também diariamente às seis horas. Naquele tempo, em 1964, eu era jovem e ainda jantava, depois comia um pedaço de carne roubado na geladeira na hora de dormir.
Esse negócio de comer é como um vício, quando a gente está acostumado não se pergunta de onde vem o alimento, quanto custa, como aparece; nem quem cozinha, nem o trabalho que dá. O fato é que existe o hábito: na hora de comer você come e pronto.
Diante daquela situação nova, na hora do almoço eu desconfiei que não tinha almoço. Que susto, rapaz! Eu estava na roça de Pereira, que conhecera no balcão da loja de meu pai, era freguês. Ele já tinha me socorrido antes, em 1958, quando eu consegui uma dispensa no Exército para ir a Irará. Fiz a viagem a pé durante a noite, de Água Fria a Irará; às quatro da manhã percebi que não agüentava mais andar com aquela mala na mão, depois de caminhar ao lado das estrelas a noite toda. Resolvi entrar na primeira cancela que achei; era justamente a de Pereira, o mesmo homem que mais tarde me levou, montado no seu jegue, completando os dois quilômetros que faltavam para Irará -- o filho de seis anos e ele próprio por companhia.
Agora, na hora do almoço, estamos em 1964, e por coincidência foi para a casa de Pereira, casa muito pobre, de chão batido, que meu pai me mandou por medo das ameaças de que o Exército, aquele mesmo que eu servira em 58, estivesse, conforme as notícias assombradoras, se aproximando de Irará.
Então, na hora do almoço, desconfiei que não tinha almoço. Olhei prum lado, pro outro, e perguntei a Augusto, meu irmão e companheiro de fuga. Augusto me informou: "O almoço vem de Irará. Todos os dias vão mandar." O fato é que durante o tempo em que estivemos na casa de Pereira ele, a mulher e o filho almoçaram todos os dias conosco. Meu pai se preocupava muito com comida: além de ele ter passado fome quando criança, eu sempre ouvira dizer que seus irmãos haviam morrido tuberculosos e que uma das causas era a inanição. A comida que que meu pai mandava de Irará era tão farta que dava para nós cinco almoçarmos e jantarmos.
Foi assim que eu compreendi como é que aquelas pessoas do sertão viviam havia 25 gerações, quer dizer, havia 400 anos. Cada dia é uma uma interrogação que pergunta se haverá um próximo dia. Esse futuro os encontrará vivos se eles conseguirem comer hoje alguma coisa que dê para sustentar a voracidade com que as células necessitam de energia.
-x-
Eu estava perambulando pela Livraria Cultura e achei um livro que trazia esse texto do Tom Zé na orelha. O livro se chama Nova Geografia da Fome, de Xico Sá com fotos de U. Dettmar.
Não deu pra ver ou ler muita coisa, eu estava com pouco tempo, mas fiquei encantada com esse texto do Tom Zé... com essa simplicidade em se expressar, em saber traduzir .








